quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Contra Todos


Exibição do dia 30 de agosto, quinta-feira



CONTRA TODOS: Um gás no aguado refrigerante do cinema brasileiro

Por Roberto Maxwell


Num momento onde a discussão mais importante entre os cineastas brasileiros é a conquista do grande público, CONTRA TODOS, o primeiro filme de Roberto Moreira, é um colírio intelectual para olhos tão cansados de ver idéias (muitas vezes mal) recicladas da TV dominando a produção cinematográfica nacional.
Sem trocadilhos, o diretor vai contra todos os clichês da atual leva de filmes brasileiros: diz não ao apelo fácil de rostos conhecidos do grande publico, não resvala para o sentimentalismo barato e para o maniqueísmo das histórias de mocinho e bandido, tem uma trilha sonora criativa e que interage com o resto da linguagem, escolhe a rua e o realismo cru batendo de frente com os suntuosos cenários e os rituais de embelezamento de planos através de movimentos de câmera rebuscados e de uma fotografia pretensamente bem elaborada.
Mais feliz, no entanto, foi a escolha do elenco. Ao apostar em rostos desconhecidos do público, o diretor consegue, pelo efeito do desconhecimento, uma identificação direta entre personagem e público, barreira que tem que ser transposta quando se trabalha com atores famosos. Mesmo assim, é o talento dos intérpretes que se sobressai, criando um filme equilibrado, onde todos os atores do elenco principal têm destaque.
CONTRA TODOS é um filme que bate de frente com toda a mesmice que vem empalidecendo de criatividade a produção brasileira atual e, mesmo que não encha os bolsos dos exibidores e distribuidores, já é uma prova de que o tão falado cinema nacional não morreu de obesidade pelo excesso de pagantes (estes muito bem-vindos, sobretudo quando pensantes), nem de inanição por medo de abordar temas ‘pesados’ e ‘polêmicos’, algo de que muitos cineastas fogem, com pavor de espantar o público.


Endereço deste artigo: http://cineminha.uol.com.br/materia.cfm?id=2164

Curtas-metragens de Roberto Moreira: http://www.portacurtas.com.br/buscaficha.asp?Diret=800
Cinema Brasil: http://www.cinemabrasil.org.br/



Título Original: Contra Todos

Gênero: Drama

Tempo de Duração: 96 minutos

Origem/Ano: Brasil/2004

Direção: Roberto Moreira

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Homenagem a Anderson

Texto lido antes da exibição do filme Sonhos em homenagem ao nosso amigo Anderson (aluno do 4º período de História da FFPNM) que faleceu no dia 11 desse mês.



Sonhos

Como é essa partida assim, com tanto hotmail, tv de plasma, maconha aí pra tantas outras viagens? Você não pode deixar essa faculdade ridícula, você é um dos nossos novos, dos que nós, veteranos, ex-alunos, intimamente desprezamos pela falta de sabedoria, pela falta de influência, por não saber de nossa gloriosa passagem por aqui. Você deveria ter ficado pra aumentar o prestígio diante de nós, pra nos fortalecer. Pra saber de nossas bebedeiras, das nossas orgias. Como é que este garoto lindo ultrapassa tão cedo o limite máximo? É verdade, existem fronteiras nas nossas viagens, mas você não entenderia isso.
Lembro de três momentos que nos comunicamos de coração aberto. O primeiro, foi quando passei na tua sala, interrompi a aula de um professor qualquer, expliquei o funcionamento do Cineclube AZouganda e, pela maneira libérrima com que me apresentei, o tal professor me censurou e tivemos, eu e o professor, um momento de desentendimento, apesar de minhas explicações claríssimas. Posteriormente a esse acontecimento, nos encontramos numa festa e você, até então um desconhecido, se aproximou de mim. E o que você conhecia de mim era o meu teatro, as minhas incorporações ao passar nas salas munido de recheios românticos. Quando, na festa, você se aproximou de mim pra citar a minha passagem ruidosa na sala de aula, percebi que você era um romântico também. E você se aproximou de mim pra me apoiar, pra elogiar a minha atitude, apesar de não me conhecer, de nunca ter falado comigo.
Comecei a notar a tua presença entre os que assistiam às minhas leituras no Espaço Paulo Freire. A partir de então, você passou a me chamar de “poeta”, quando nos cumprimentávamos. A primeira vez que você me intitulou “poeta” foi no Recife Antigo, numa noite sexta-feira, talvez de carnaval. Nunca digo que sou poeta, até porque, de fato, não escrevo poemas, no máximo digo que escrevo, e o que escrevo é prosa. Mas sei do peso dessa palavra e os mil elogios que você queria lançar sobre a minha figura quando se referia a mim como “poeta”. Não sei se isso se dava ao fato de você não lembrar o meu nome e, para substituir um iminente desconcerto de ocasião, lançava-me um termo genérico, resumo do que você cria ser minha personalidade, minha vida. Isso não risca a importância desse hábito teu criado espontaneamente, pois no lugar de me chamar de “mamão”, “mané”, “frango”, “idiota”, ou qualquer outro nome, você inteligentemente me chamava de poeta.
Outro fato foi durante uma leitura que fazia no Paulo Freire. Você estava lá, interessado, os olhos avermelhados. Enquanto berrava uma letra de uma música do Los Hermanos, você quebrou o distanciamento normal que existe entre o ator e o espectador, ou seja, entre o palco e o público e também berrou na minha cara: - É isso aí! Atitude! Atitude, porra! Você foi o único, de todas as minhas aparições e leituras, você foi o único que manifestou uma compreensão claríssima diante do que eu estava fazendo ali, de saia, no meio do pátio da faculdade, em vez de estar dentro de sala de aula. Você foi o único que o fez de maneira imponente, soberana, rebelde, como cabe a um gênio. E, por isso, eu te amo, apesar de ter partido ainda como um desconhecido meu.
O que foi que aconteceu? O teu corpo esguio e forte, tua beleza de garoto macho, a tua sensibilidade diante desse mundo imbecil e uma vontade de mudança, de revolução tão bela quanto o teu físico. A vida ainda nem tinha chegado, o conhecimento do centro das relações ainda nem era teu, e pulaste da margem, saltaste o limite da margem.
Esta noite, 15 de agosto, a primeira exibição do segundo semestre de 2007 da FFPNM, eu e meus colegas do Cineclube AZouganda dedicamos à figura de Anderson. O filme, “Sonhos” de Akira Kurosawa. Pela partida sem regresso de Anderson, hoje, a beleza está ferida e os sonhos, em mim, em nós, mais belos e mais cheios de vida.


Artur Rogério, 15 de agosto de 2007.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Sonhos


Sonhos, de Akira Kurosawa

Filme do cineasta japonês Akira Kurosawa, Sonhos trata - em sua maior parte - da natureza e sua relação com o egoísmo humano, da destruição imposta a si mesmo e ao planeta.
São oito episódios, alguns sobre as experiências vividas pelos japoneses após a 11 Guerra Mundial, como O Túnel. O trauma das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, por exemplo, é nítido nos episódios O Demônio Chorão e Monte Fuji em Vermelho. Este último, apesar de tratar de um assunto pesado, tem belas imagens formadas pelas nuvens de radioatividade coloridas (O Amarelo do Estrônio 90, o violeta do Césio 137 e o vermelho do Plutônio 239).
O fascínio do diretor pelo pintor Vincent Van Gogh também está presente. É retratado em Corvos, no qual um homem, ao admirar um quadro do artista, é levado para dentro da obra. Além de passear pelas pinturas do ídolo ao som da 9a sinfonia de Beethoven, recebe uma lição de pintura do holandês: só é capaz de pintar aquele se envolve com a natureza, que a admira e segue a beleza que ela tem a oferecer.
Outro capítulo marcante é Pomar de Pêssegos.Levado por uma estranha força ao local onde ficava o pomar de pêssegos de sua família, um garoto encontra o imperador japonês e seus súditos numa espécie de morro cortado em patamares - o que remete à tradicional hierarquia japonesa. Eles estão preparados para dançar e celebrar "O Dia da Boneca", ou seja, o florescimento dos pessegueiros, pois os bonecos representam os espíritos das árvores. Porém todas foram cortadas e não há mais o que celebrar. Acusado de egoísta pelo imperador, o garoto puro chora a morte das árvores. Como prova de comoção eles dançam uma calma e sincronizada dança. Nesse momento começa a chover pétalas de flores de pêssego e no local em que estavam as pessoas surgem lindas árvores floridas.
Além desses, Sonhos ainda traz os episódios O Sol em meio à Chuva, A Nevasca e Povoado de Moinhos - este último com uma mensagem aos seres humanos capitalistas. Um velho sábio fala ao moço da cidade grande sobre as coisas que considera as mais importantes na vida de uma pessoa: a água e o ar puro.
De que adianta tanto conforto proporcionado pelas invenções da modernidade, se não há mais paz e se as pessoas esqueceram que preservar a natureza é fundamental? O filme termina com uma lição: um cortejo festivo para celebrar a morte de uma senhora de 99 anos - afma!, nada mais justo do que se despedir de uma pessoa que viveu muito bem e de forma completa com dança e música.

Ficha Técnica:

Título Original: Akira Kurosawa's Dreams / Yume
Gênero: Drama
Origem/Ano: JAP-EUA/1990
Duração: 119 min
Direção: Akira Kurosawa

Exibição:

DIA: 15 de agosto de 2007, quarta-feira
LOCAL: Sala do bloco A (a tarde), Quadra da FFPNM (a noite)
HORA: 15h30; 19h30

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Mostra AZ de Curta-Metragem


Exibição do dia 22 de maio de 2007


O cinema começou com curtas.
Depois se alongou e se complexicou.
O Cineclube AZouganda do complexo virou simples e maior, bem maior.
A questão é que tamanho não é documento.
15, 20, 30 segundos, um comercial da Coca-Cola.
Fala de Fidel Castro. Fala de Paulo Leminski, Dalton Trevisan.
“Cama de Gato”, Caio Blat. Amor de mãe.


Agora tem curta-metragem no big, big, great Cineclube AZouganda.
Terça-feira, 22 de maio.
De tarde, 15h30.
De noite, 19h30.
Dê uma rapidinha na FFFPNM.

A Máquina

Exibição do dia 11 de maio de 2007


A Máquina

Por Fabiane Secches


“A Máquina” é o filme de estréia de João Falcão, experiente dramaturgo com um respeitável currículo no teatro e na televisão. E Falcão, que não é bobo nem nada, começou logo com o pé direito e escolheu como tema de seu primeiro longa-metragem a adaptação da peça homônima, baseada em romance também homônimo (Editora Objetiva) de sua mulher, Adriana Falcão.
É um conto de fadas moderno, mas que conserva a peça chave: o amor como elemento transformador da realidade (exatamente como em outras histórias do gênero). Quando os sonhos desafiam as leis da física e da geografia, quando as condições políticas e sociais são cruéis, mas ainda assim não roubam a vida interior e nem os sentimentos genuínos, então ainda existe algo de belo a ser contado. E é neste contexto que está inserido a fábula “A Máquina”, que além de um bom roteiro, traz atuações primorosas.
O filme encanta, sobretudo pela linguagem multidisciplinar (própria de quem transita com segurança entre diversos meios de comunicação como João Falcão faz) belamente construída ao misturar mídias como o cinema, a televisão, o videoclipe e o teatro.
O contemporâneo filósofo francês André Comte-Sponville, ao questionar se o que fazia era Filosofia ou Literatura, escreveu: “deixo os rótulos aos que eles ainda interessarem”. Creio que este é o segredo de se fugir do lugar-comum – fugir da segregação e da catalogação. Pois então, para mim, João Falcão, ao trazer esta cultura “politeísta” para as telonas, só poderia mesmo ter entrado para o mundo do cinema com o pé direito. E inspirada pela rebeldia lingüística, diria até que com os dois pés direitos, afinal.


Endereço deste artigo: http://www.zetafilmes.com.br/criticas/amaquina.asp?pag=amaquina

AZ na Semana de História da FFPNM

A coordenação do Cineclube AZouganda participou da VII Semana de História da FFPNM nos dias 4, 5 e 6 de maio de 2007 exibindo os seguintes filmes:

CABRA-CEGA (SEX ÀS 18:00)
GUIA DOS MOCHILEIROS DAS GALÁXIAS (SEX ÀS 22:00)
MANDERLAY (SÁB ÀS 13:00)
LOLITA (SÁB ÀS 16:00)
TERRA PARA ROSE (SÁB ÀS 18:00)

Hair

Exibição do dia 26 de abril de 2007


O que você prefere, fumar um baseado ou ir pra guerra?


Hair (cabelo), foi durante boa parte da década de 70 o anti-tudo mais romântico dos EUA, anti-guerra, anti-repressão, anti-burguesia, ou seja, liberdade e justiça para todos. Baseados, “docinhos” e a vontade de lutar no Vietnã, fazem com que todos se perguntem: Qual foi a maior loucura que eu já cometi? Qual foi a maior loucura que sou capaz de cometer?
Numa época em que ainda se consideravam gays ou homens com cabelo grande como vagabundos que fumavam um baseado, é incrível como Milos Forman conseguiu mostrar de forma tão lúdica toda estupidez e intolerância de mandar meninos para morrer nas selvas vietnamitas, e o que é pior, com apoio dos próprios pais.
O musical, inicialmente escrito para a Broadway, ainda hoje traz a tona sentimentos quase esquecidos, ou esquecidos à propósito, amizade, vontade de querer bem e o amor. Não o amor possessivo, mas sim o amor verdadeiro, amor por seus amigos, sem cobranças e sem limites.
Vejo nos contrastes norte-americanos da década de 70 exemplos totalmente usáveis para os dias de hoje, quantos de nós não gostaria de ter um amigo como aquele, capaz de dar a vida pelo outro, sem cobranças, sem arrependimentos, pura e simplesmente por amor, ou loucura, seja lá o que for faz muita falta nas vidas juvenis de hoje.
Em tempos que BBB mobiliza as atenções de um país continental como o Brasil, é quase inimaginável ver alguém agir com tanta coerência (mesmo dentro da loucura total), e com tanta liberdade espiritual.
Vejo no Hair, ainda hoje, um apelo a todos esses sentimentos, e que cada um possa fumar seu baseado e se quiser vá para guerra, quem sou eu para dizer que não.

Luiz José OliveiraEstudante do 1º Período de Geografia da FFPNM-UPE




Cinema Musical: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cinema_musical


Ônibus 174


Exibição do dia 11 de abril de 2007


Ônibus 174

Por Thiago P. Ribeiro


Mansões e barracos. Carros importados e pés descalços. O chão gelado das marquises e o quarto confortável do doce lar burguês. Miséria e ostentação. Rocinha e Jardim Botânico. Viver e sobreviver. Diversas são as dualidades possíveis e imaginárias ao assistirmos o filme Ônibus 174. Os depoimentos, as imagens, o rancor em algumas falas, o pesar em outras, a trilha sonora, tudo parece nos encaminhar para um conflito entre o marginal e o incluído. Entre nós e aqueles que não são.

Sandro era mais um de nossos meninos de rua. Nosso novo Pixote. Garotos destemidos e sem esperança. Seus caminhos, trilhados pela loucura, marcados por traumas, perseguição e morte remetem a vidas sem rumo, em um país invisível. Exclusão apoiada pela maioria e percebida por poucos.

O diretor José Padilha volta ao episódio para nos revelar que o que vimos era apenas um fragmento da história. Tínhamos uma impressão errônea, nublada pela raiva e cega pela covardia. Os depoimentos colhidos, o levantamento dos dados e a investigação efetuada nos revelam que as raízes do mal plantado naquela tarde carioca estavam profundamente fincadas nas mazelas sociais e econômicas do país.

Bandidos, policiais, seqüestrados e familiares expõem seus pontos de vista sobre o que realmente motivava Sandro e mais uma vez nosso cinema mostra a realidade e nos atinge certeiramente. Somos arremessados ao submundo de nossas vidas. Trechos de existência que tentamos esquecer e renegamos com fervor. As ruas não nos pertencem. As falas soam como distantes idéias de disparidade entre nosso mundo e aqueles relatos.

Somos diferentes. Somos superiores. Somos o juíz e o júri do caso 174. Absolvemos os policiais culpados da morte de Sandro. Queremos vingança. A morte foi merecida. O "suicídio" de Sandro foi a solução encontrada para dizer que damos o poder a polícia. Nosso braço armado está livre para julgar, condenar e matar. Temos a sensação de alívio. A panela não está mais preste a explodir. Será?




Endereço deste artigo: http://www.cinemando.com.br/arquivo/filmes/onibus174.htm
Cinema Documentário Brasileiro: