quarta-feira, 19 de agosto de 2009

À Meia-Noite Levarei sua Alma

Por Pedro Moraes


À Meia-Noite Levarei sua Alma é o primeiro longa-metragem do cineasta brasileiro José Mojica Marins. O filme que é considerado o primeiro clássico de terror do cinema nacional, marca o surgimento de um personagem que se tornou folclórico no imaginário popular do cinema brasileiro, o Zé do Caixão. A película no formato preto e branco foi realizada em 1964 em plena ditadura militar e contesta de forma inteligente diversos dogmas culturais como a moral e a religiosidade.

A obra apresenta uma narrativa clássica, com a linearidade de inicio meio e fim bem definida. Os planos, iluminação e efeitos sonoros estão vinculados ao estilo do cinema dominante, encadeados de acordo com a necessidade de causa e efeito gerando impactos no espectador.

A aparência de Zé do Caixão surge com influências de diversos filmes clássicos do cinema, dentre outras, películas de duas fontes obrigatórias, o terror norte-americano e o expressionismo alemão. Podemos dizer que a estética se assemelha mais ao cinema de Hollywood, porém o personagem é mais semelhante ao eu expressionista.

Zé do Caixão possui as unhas semelhantes ao Nosferatu de Murnau (1922), e vestimentas típicas de Caligari e Cesare em O Gabinete do Dr. Caligari de Robert Wiene (1919). Visualmente, o personagem criado por Mojica também se assemelha a Béla Lugosi em Drácula (1931) e Chaney em London After Midnight (1927), ambos os filmes, de Tod Browning.



Apesar de não ser um filme inovador para a arte cinematográfica universal, À Meia-Noite Levarei sua Alma é algo diferente para o Brasil. Mojica traz para o país um mundo diegético diferente dos realizados por diretores brasileiros, pois no cinema nacional a esfera de terror nunca foi uma tradição cinematográfica. Por isso, Zé do Caixão ainda soa para os espectadores com um estranhamento, porém essa diferença atraiu uma grande bilheteria para o personagem, fazendo do Mojica um diretor de intensa produção nas décadas de 60, 70 e 80.

Os filmes de Mojica aparentemente ingênuos, analisado, por muitos como películas que apenas exibem um sangue barato, conseguiram por diversas vezes, burlar a censura de um país que vivia intensamente um período de ditadura militar, apresentando cenas de violência e nudez. Em plena repressão, À Meia-Noite Levarei sua Alma expõe um personagem anárquico, Zé do Caixão é um homem que não respeitava nada e menosprezava as autoridades da cidade e a instituições da sociedade como religião e família.

A película começa com um diálogo que vira rotineiro na obra de Mojica. O diretor usa um personagem do filme, neste caso uma cigana, para desafiar o espectador e contar um pouco sobre o que irá aparecer nas telas. Conversando com a câmera e utilizando frases de efeito do tipo: “vão embora, não assistam esse filme”, Mojica usa esta tática para criar um vínculo de verossimidade com quem esta assistindo o filme, fazendo da ferramenta um atalho para posteriormente na narrativa os fatos ficarem mais accessíveis ao sentimento do medo. Essas cenas são regadas a uma trilha sonora sombria e incrementadas com gritos e sussurros. Com poucas exceções, as imagens citadas são feitas pelo próprio diretor, que sempre aparece acompanhado por belas mulheres com vestimentas góticas ou semi-nuas.

Vale salientar que além do terror a obra no Mojica é marcada com fases de filmes de pornô-horror. E podemos encontrar diversas películas como Perversão e Inferno Carnal que além de tentar atrair o público para ver crimes, mortes e assassinatos, usa da morte ligado ao sexo para mexer com o fetichismo subconsciente do espectador, misturando elementos como sadismo, sexualidade e terror.

À Meia-Noite Levarei Sua Alma narra a vida do agente funerário de uma cidade pacata e conservadora chamado Zé do Caixão; um ser expressionista que tem suas emoções levadas ao extremo. O agente funerário é um ser odiado pelos moradores da cidade, que o considera uma figura demoníaca sendo uma aberração doentia e psicótica.

O personagem é obcecado pela idéia de propagar sua existência com um filho, esse ideal faz com que ele realize uma busca constante por uma companheira perfeita. Essa perfeição não é atrelada a sentimentos ou desejo de construir uma família, a busca é feita apenas com os critérios de não ter fé, ser bela e burlar de alguma forma o padrão de mente feminina da época.

Endereço deste artigo: http://pmoraes.wordpress.com/


Saiba Mais:

Zé do Caixão:
http://www2.uol.com.br/zedocaixao/index.htm
O Cinema de Horror:
http://www.mnemocine.com.br/oficina/horror.htm

Um comentário:

Wagner Bezerra Pontes disse...

Nunca tinha assistido a um filme dele, mas lembro vagamente de um programa dele que passava na Band (se não me engano),tbm não lembro muito quais eram os filmes... mas concordo que ele tem "fases de filmes de pornô-horror",pq no programa lembro que sempre havia uma "gostosona" do lado dele e que nada tinha a ver com os filmes de terror que ele passava, o que lembra muito tbm os filmes de Jason que sempre tem uma cena de sexo ou algo que envolva mulheres peladas...

Gostei da exibição e espero ver os próximos filmes de Zé do caixão por lá(especificamente da trilogia...hehe), abraço! =D